! O Corneta | Cobrasma em 1968: o chão de fábrica foi pro pau!

Cobrasma em 1968: o chão de fábrica foi pro pau!

Em julho, a greve da Cobrasma, em Osasco, completou 50 anos. Esse histórico movimento foi um marco de luta e resistência operária no final da década de 1960, durante a ditadura civil-militar brasileira. A mobilização, que colocava os trabalhadores em luta contra o arrocho salarial, o aumento do custo de vida e a perda da estabilidade de emprego, foi fruto de um longo processo surgido no interior da fábrica, a partir da reivindicação por melhores condições de trabalho no dia a dia da empresa.

Na edição 79 do Corneta, entrevistamos Luisão – ex-metalúrgico da Cobrasma e membro da Oposição Sindical – que contou que: “a principal coisa que assustava o peão dentro da fábrica eram as condições de trabalho, não tinha garantia, proteção. E tem pequenas coisas, banheiro, refeitório, coisas que você encontra dentro de uma empresa (…). Não vamos nem falar de salários ruins, que aí já é uma coisa normal”.

Comissões de Fábrica

Devido à repressão da época, a luta para garantir mínimas condições no ambiente de trabalho passou a ser organizada por uma comissão clandestina, que tinha como objetivo a formação de uma comissão de fábrica legal para negociações junto à empresa, com a garantia de que seus membros não fossem demitidos. “A gente não podia contar com o sindicato, porque era um bando de pelegos, que vinham desde antes de 1964. Eles não tomavam conhecimento, como os sindicatos de hoje, do que acontece dentro de fábrica”.

O grupo de operários de luta, formado a partir da mobilização interna às fábricas, brigou para mudar a direção pelega do Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco. Em 1967, elegeram a Chapa Verde, que apresentava 3 eixos principais em seu programa: organização dos trabalhadores dentro das fábricas, contra a política repressiva do governo militar e contra o arrocho salarial.

A ênfase nesse momento passou a ser dada na construção de comissões de fábrica (legais ou não) e na participação em todos os instrumentos legais de luta (como, por exemplo, os sindicatos). Nesse cenário, o sindicato aparecia como instrumento para pressionar o governo por reajuste salarial, ou seja, os trabalhadores, que se organizavam para além e apesar do sindicato, deveriam utilizar-se da estrutura sindical como meio de lutar na esfera legal, para ampliar a margem de legalidade permitida pelo governo à classe trabalhadora.

A vitória dos operários de Contagem, Minas Gerais, em abril de 1968 indiscutivelmente influenciou os metalúrgicos de Osasco, que, ao se organizarem em seus locais de trabalho, vinham ganhando maior força de mobilização a cada dia.

A radicalização no 1º de maio daquele ano, em que os operários não aceitaram a presença do governador de São Paulo em seu ato, já aparecia como manifestação do avanço da conscientização da categoria. “A gente bateu o pé dizendo: a gente não quer uma confraternização de classes, a gente quer um 1º de maio só de trabalhadores e não aceita trazer para a nossa comemoração governador, deputado, essas coisas”, relatou Luisão.

Avanço da organização

A prova definitiva desse avanço na organização e na independência da classe operária de Osasco veio com o estourar da greve de julho daquele ano. Apesar de a data-base da categoria ser apenas em novembro, o reajuste salarial dado pela empresa naquele período apenas para mestres e contramestres gerou grande insatisfação dos metalúrgicos. Essa insatisfação, somada à comissão de fábrica organizada, acabou sendo o estopim da histórica mobilização.

Como relatou Luisão: “Nosso dissídio era em novembro, então a gente iria fazer greve para conquistar as reivindicações que a gente tinha, principalmente contra o arrocho salarial. Era o trabalho que se fazia em conjunto com pessoal estudantil, de bairro, de fábrica. E aí vem o radicalismo da proposta… Como não é o sindicato que está chamando a greve, a gente ocupa a fábrica”; e logo a greve se estendeu a outras empresas de Osasco, como a Barreto Keller, a Braseixos e a Lonaflex.”

Com as máquinas paradas e os trabalhadores da Cobrasma ocupando a fábrica – além do fato de trabalhadores de outras empresas aderirem ao movimento –, a pressão para que o governo cedesse o reajuste salarial era enorme.

Como o arrocho salarial e o aumento do custo de vida estavam na base da política econômica da ditadura, como forma de garantir cada vez maiores lucros aos patrões, a repressão ao movimento não tardou a chegar. A retomada da fábrica, além de ser uma questão de honra para o governo, seria a garantia da manutenção de sua política econômica em defesa da patronal.

A repressão ao movimento operário era condição necessária para o aumento cada vez maior dos lucros da burguesia brasileira e internacional no país, e na noite do mesmo dia 16 de julho o exército brasileiro cercou e invadiu o município de Osasco com mais de mil soldados; a cavalaria da polícia militar invadiu a fábrica ocupada e mais de 400 operários foram presos.

Lições das lutas

Se o movimento de Osasco na ocasião foi derrotado pela ditadura militar, sua experiência ultrapassa a própria greve ocorrida naquele momento, na medida em que a classe trabalhadora brasileira colocou em prática novos métodos de luta a partir de novas formas de organização construídos e constituídos por meio da mobilização independente da categoria, como ocupação de fábrica e comando de greve independente do sindicato, por exemplo.

Não por acaso a experiência de Osasco serviu de exemplo aos levantes operários do final dos anos 70 e início dos 80, que foram fundamentais para a derrubada da ditadura. E também não por acaso a memória e o exemplo dos bravos operários de Osasco são combustível necessário para as difíceis lutas que estão no horizonte de nossa classe.

 

Na foto: operários tomam o palanque da ditadura no 1º de maio de 1968